Como o ecossistema PATOS → Lector → PRISMA captura a riqueza semântica completa do conhecimento farmacêutico — do preparo parenteral às advertências categorizadas, do monitoramento temporal às populações especiais — informação vital que hoje vive dispersa em bulas de 40 páginas, protocolos hospitalares e na memória dos profissionais.
Quando um sistema de informações farmacêuticas estrutura dados de medicamentos, quase sempre começa pelo óbvio: indicações, contraindicações, posologias, reações adversas. São as seções nobres da bula — aquelas que médicos consultam e que sistemas de prescrição eletrônica exibem.
Mas existe uma classe de informação farmacêutica que é igualmente vital e permanece quase inteiramente não-estruturada em qualquer base de dados brasileira: a informação de preparo e administração de medicamentos parenterais.
É o conhecimento que define se uma anfotericina B lipossomal vai ser diluída em soro fisiológico (destruindo os lipossomas e expondo o paciente a nefrotoxicidade) ou em soro glicosado 5% (a única opção segura). É o conhecimento que diferencia “estável por 6 horas” de “estável por 48 horas quando preparado em área limpa” — uma distinção que define se o hospital pode preparar lotes antecipados ou deve preparar cada dose individualmente.
Essa informação existe — dispersa em bulas de 40 páginas, monografias hospitalares, protocolos institucionais, livros de referência como o Trissel e bancos como o Stabilis. O que não existe é uma representação estruturada que permita a um sistema computacional distinguir automaticamente o que pode e o que não pode ser feito com cada medicamento em cada estado físico-químico.
A chave conceitual do modelo PharmData é reconhecer que um medicamento injetável não é uma coisa — ele passa por três estados físico-químicos distintos, cada um com condições de estabilidade, restrições e prazos próprios.
Cada estado tem seu próprio prazo de estabilidade, suas condições de armazenamento, suas restrições de diluente e material. Misturá-los numa estrutura única — como fazem a maioria dos sistemas — é perder informação clínica. Um exemplo:
10mL de AD3,5mL AD ou Lidocaína 1%40mL (infusão) / 100mL (HSL)Note que a reconstituição IM usa lidocaína como diluente (reduz dor na injeção), enquanto a EV usa água destilada. A estabilidade pós-reconstituição depende de onde o preparo foi feito — se em área limpa certificada, o prazo triplica. A incompatibilidade com cálcio é informação de vida ou morte para neonatos.
Nenhum desses detalhes sobrevive a uma estrutura plana de dados.
Os exemplos a seguir foram extraídos do acervo real do PATOS — 907 monografias do Hospital Sírio-Libanês e milhares de bulas profissionais ANVISA. Cada um demonstra um padrão de informação que a base PharmData captura de forma estruturada.
10mL de AD → concentração de 50mg/mL
5mg/mL · Concentração máxima: 10mg/mL
A vancomicina reconstituída é estável por 14 dias sob refrigeração — uma informação operacional de altíssimo valor. Ela permite que a farmácia central prepare um lote e distribua ao longo de duas semanas. Sem essa informação estruturada, cada dose exige preparo individual.
5mg/mL — potencial irritante
A fenitoína é o exemplo perfeito de por que a diluição não pode ser um campo único:
o mesmo medicamento tem protocolos completamente diferentes dependendo de
se o paciente tem acesso venoso central ou periférico. Estruturar essa informação
como diluicoes_por_via permite que o sistema alerte o profissional
no momento certo.
10mL de AD ou SF por frasco-ampola
A maioria dos medicamentos tem estabilidade aumentada pela refrigeração.
O aciclovir é uma exceção perigosa: refrigerar a solução reconstituída causa
precipitação. Um campo booleano nao_refrigerar ou
um alerta no Evidence Pack de reconstituição captura essa inversão de regra de
forma que sistemas de suporte à decisão possam emitir alertas automáticos.
A restrição de material — restricao_material: "sem PVC" —
é um campo que não existe em nenhuma base de dados de medicamentos brasileira.
Capturá-lo de forma estruturada permite que sistemas de dispensação alertem quando
o equipo selecionado é incompatível com o medicamento prescrito.
1–4 mg/mL (padrão HSL: 1mg/mL)
O rituximabe demonstra por que estabilidade deve estar dentro do EP de cada estado: a via EV tem uma estabilidade, a via SC tem outra — com regras de sequenciamento (48h refrigeração seguidas de 8h em TA).
O PATOS (repositório documental imutável) já contém o maior acervo farmacêutico estruturável do Brasil. As monografias do HSL são particularmente valiosas: são documentos práticos, escritos para o farmacêutico hospitalar, com protocolos institucionais, referências cruzadas (Stabilis, RDC 67) e informações que não existem na bula ANVISA.
A bula ANVISA, por sua vez, contém informações formais e extensas — como as 740 caracteres sobre incompatibilidades da ceftriaxona — que complementam a monografia hospitalar com o rigor regulatório.
A tabela abaixo compara a representação anterior (“plana”) com a nova estrutura semântica para o Evidence Pack de Diluição.
| Campo | Antes (plano) | Depois (estruturado) |
|---|---|---|
| solucoes_compativeis | Lista flat: ["SF", "SG 5%", "SG 10%"] | Por via: EV direta → sem diluição; infusão → SF, SG 5%, SG 10% |
| solucoes_proibidas | Não existia | [{solucao: "Ringer Lactato", motivo: "contém cálcio → precipitação"}] |
| volumes_por_dose | Não existia — volume era campo único | [{dose: "até 1g", volume: "20mL"}, {dose: "até 2,5g", volume: "50mL"}] |
| restricao_material | Não existia | "sem PVC (adsorção)" / "filtro 0,22μm" |
| acesso_venoso | Não existia | "CVC: puro; AVP: diluir 5mg/mL" |
| estabilidade | EP separado (ESTABILIDADE), muitas vezes vazio ou confundido com armazenamento | Embutida no EP de diluição: [{condicao: "TA", prazo: "3h"}, {condicao: "refrigeração", prazo: "15h"}] |
A mesma evolução acontece na Reconstituição:
| Campo | Antes | Depois |
|---|---|---|
| reconstituicoes | Diluente e volume como campo único | Por via e apresentação: EV 500mg → 5mL AD; IM 1g → 3,5mL Lidocaína 1% |
| tecnica | Não existia | "Girar delicadamente, não agitar. Repousar 5 min." (infliximabe) |
| aspecto_solucao | Não existia | {cor_esperada: "amarelo-pálido a âmbar", criterio_descarte: "cristais aceitáveis"} |
| estabilidade | Campo genérico, sem área limpa | [{condicao: "TA", prazo: "6h"}, {condicao: "refrigeração", prazo: "24h"}, {condicao: "área limpa", prazo: "48h", referencia: "Stabilis, RDC 67"}] |
| alertas | Não existia | "NÃO refrigerar — precipita" (aciclovir) |
Cada afirmação extraída — cada source_excerpt — é
rastreável ao trecho exato do documento de origem. A cadeia é completa:
node_id que identifica o trecho na árvore.
source_excerpt (trecho literal),
node_ids (posição na árvore) e link ao VMP_GROUP (substância + forma).
Qualquer profissional que consulte a Monografia PRISMA pode navegar até o trecho original da bula ou monografia que fundamenta cada afirmação. Essa cadeia de rastreabilidade — EP → nó da árvore → documento PATOS — é inédita em bases farmacêuticas brasileiras.
A bula do Humira (adalimumabe) contém 21 advertências gerais e 4 precauções. Na estrutura atual, todas colapsam numa lista flat — infecções graves, malignidades, desmielinização, reações no local da injeção e hepatite B vivem lado a lado, sem hierarquia, sem categorização.
Para o prescritor que precisa avaliar riscos antes de iniciar o tratamento, uma lista de 25 itens sem organização é ruído, não informação. O que ele precisa é saber: quais advertências exigem avaliação pré-tratamento? Quais são monitoramento contínuo? Quais são raras mas potencialmente fatais?
A categorização por domínio clínico transforma uma lista indiferenciada em informação acionável. O prescritor sabe imediatamente que precisa pedir PPD e radiografia de tórax antes de iniciar, e hemograma durante o tratamento — sem precisar ler 25 itens para separar o urgente do rotineiro.
A ceftriaxona pode ser administrada por via EV direta (3–5 minutos),
EV diluída (30–60 minutos, ou 3 horas em pacientes críticos), intramuscular
(em grande massa muscular, máximo 1g por glúteo) e durante hemodiálise (bolus com
máquina em UF). São quatro protocolos completamente diferentes — velocidade,
volume, local, equipamento — que hoje colapsam na mesma lista de
procedimento[].
via_administracao: "EV e IM"procedimento:Quando a técnica está indexada por via, o sistema de prescrição pode exibir apenas o protocolo relevante para a via prescrita — reduzindo carga cognitiva e risco de erro.
O monitoramento laboratorial tem fases temporais distintas: pré-tratamento, durante, e pós-tratamento. A varfarina exige INR semanal na indução e mensal na manutenção. O metotrexato exige hemograma e função renal antes de cada dose, pH urinário durante a infusão, e nível sérico após. O infliximabe exige sinais vitais a cada 30 minutos durante a infusão.
NaHCO₃ 20mEq em 100mL SG 5% em 1 hora
Sem a dimensão temporal, o EP de monitoramento é uma lista de parâmetros sem contexto. Com ela, é possível gerar checklists automatizados por fase — o que verificar antes de liberar, durante a infusão e após o término.
A seção de populações especiais contém informações de naturezas completamente
diferentes: categoria de risco na gravidez, necessidade de ajuste de dose,
contraindicação absoluta, exceções condicionais. Hoje, tudo vive num campo
{texto, source_excerpt} — um parágrafo que o sistema
não consegue interpretar.
Com campos estruturados, um sistema de prescrição pode: verificar automaticamente se a paciente é gestante e emitir alerta de categoria X; mostrar a exceção para válvula mecânica quando aplicável; e registrar a justificativa clínica quando o prescritor decide prosseguir apesar da contraindicação.
O trabalho de enriquecimento semântico do Lector não se limita às seções “nobres” da bula. São seis dimensões de informação farmacêutica que passam de texto livre para dados estruturados e acionáveis:
| Dimensão | Antes | Depois | Impacto clínico |
|---|---|---|---|
| Reconstituição | Diluente e volume como texto | Por via e apresentação, com técnica, aspecto e estabilidade | Previne erro de diluente (anfotericina B em SF) |
| Diluição | Lista flat de soluções | Por via, com proibições, volumes por dose, restrição de material | Previne incompatibilidade, adsorção por PVC |
| Advertência | 25 itens indiferenciados | Categorizado por domínio clínico (infecções, malignidades, neuro...) | Checklists pré-tratamento automáticos |
| Técnica admin. | Via única, procedimento flat | Protocolo completo por via (EV direta, diluída, IM, hemodiálise) | Exibe apenas protocolo da via prescrita |
| Monitoramento | Parâmetros sem frequência | Por fase temporal (pré, durante, pós) com frequência e ação corretiva | Checklists por fase, alertas em tempo real |
| Pop. especiais | Parágrafo por população | Categoria de risco, recomendação, ajuste, exceções estruturadas | Alerta automático por perfil do paciente |
A informação de preparo é consultada dezenas de vezes por dia em hospitais de média e alta complexidade. Hoje vive em tabelas Excel, folhetos impressos, guias institucionais desatualizados. Uma base estruturada permite:
Erros de preparo de medicamentos parenterais estão entre as causas mais frequentes de eventos adversos evitáveis em hospitais. A anfotericina B em SF, a fenitoína sem filtro, a heparina em equipo de PVC — cada um desses erros tem consequências clínicas graves e é prevenível com informação estruturada disponível no ponto de cuidado.
A ANVISA exige que bulas contenham informações de preparo e estabilidade (RDC 47/2009), mas não oferece nenhum mecanismo para que essas informações sejam consultadas de forma estruturada. O modelo PharmData transforma texto regulatório em dados acionáveis — sem alterar a fonte, sem perder rastreabilidade, sem inventar informação.